Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
últimas leituras
"Os anos encarregar-se-ão de apagar tudo o que julguei ser certo e nunca foi, para ficar apenas o que aconteceu e, por fim, até isso ser também esquecido. Os anos apagar-me-ão vais ver. E isso não me entristece, porque sempre soube que seria assim. Mas, é preciso dizer-te, nunca te quis deixar sozinho. Se o fiz, não o quis fazer."
José Luís Peixoto in Nenhum Olhar
"Tu estavas, avó, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: 'O Mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer'. Assim mesmo. Eu estava lá."
José Saramago in As Pequenas Memórias
"Tinha a esperança, no ínicio, de que se arrumasse as notas e recordações numa ordem de qualquer tipo, talvez fosse capaz de lhes dar sentido. Mas a cada nova leitura descobria-me a ser arrastada sempre para mais fundo, até que tive medo de me poder perder entre as páginas, de me afogar numa gota do meu próprio sangue."
Ana Menéndez in Por Amor a Che
Soube bem aquele fim-de-semana antes de voltar para Lisboa. Sentada de pernas à chinês na esplanada interior da livraria Centésima Página em Braga a ler, a comer e olhar a chuva lá fora. Soube bem escolher os livros que levei para casa e que acabei por trazer comigo para ler durante as viagens de metro que faço todos os dias. Para 2008 prometi ler os livros que disse que leria no ano anterior. Promessa que renovo todos os anos.
José Luís Peixoto in Nenhum Olhar
"Tu estavas, avó, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: 'O Mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer'. Assim mesmo. Eu estava lá."
José Saramago in As Pequenas Memórias
"Tinha a esperança, no ínicio, de que se arrumasse as notas e recordações numa ordem de qualquer tipo, talvez fosse capaz de lhes dar sentido. Mas a cada nova leitura descobria-me a ser arrastada sempre para mais fundo, até que tive medo de me poder perder entre as páginas, de me afogar numa gota do meu próprio sangue."
Ana Menéndez in Por Amor a Che
Soube bem aquele fim-de-semana antes de voltar para Lisboa. Sentada de pernas à chinês na esplanada interior da livraria Centésima Página em Braga a ler, a comer e olhar a chuva lá fora. Soube bem escolher os livros que levei para casa e que acabei por trazer comigo para ler durante as viagens de metro que faço todos os dias. Para 2008 prometi ler os livros que disse que leria no ano anterior. Promessa que renovo todos os anos.
Terça-feira, Janeiro 01, 2008
fora de horas
A entrada foi boa. Muito boa: dez minutos antes das badaladas do sino. Éramos quatro e fizemos a festa. Enquanto preparávamos a garrafa de champanhe para que a rolha saltasse à décima segunda badalada, a mesma estoura às 23:50 e o povo olha. Dois segundos para reagir e começamos a saltar feitos doidos a desejar “feliz ano novo” à multidão dispersa pelo Terreiro do Paço. Bebemos pelo gargalo da garrafa e comemos sofregamente as uvas passas enquanto uns riam e outros olhavam perplexos para nós. O calor da amizade derretia o frio da noite. E o Bairro Alto lisboeta riu-se das nossas piadas e as horas foram longas, cheias de beijos e cumplicidades, abraços e votos. O ano começou em grande. Abraçada a três dos meus melhores amigos. Bom Ano. Muito bom ano para todos.
E vivam bem.
Domingo, Dezembro 23, 2007
adeus
Foi difícil abandonar a tua cidade com o coração na garganta e com o sol a arder-me nos olhos rasos de água. E as pessoas olhavam-me. “Está a chorar”, disse uma miúda. Talvez tenha sido a única que reparou. Chorava as lágrimas que prometi a mim mesma que não verias. E não viste. Meti-me no carro e, enquanto procurava a saída para a auto-estrada, pensava que se fosse sozinha talvez gritasse o caminho todo até a casa, ou talvez tivesse um acidente. Não sei. Hoje chorei. Chorei nos braços da minha mãe. Chorei por trinta anos ou mais, chorei até não ter mais forças. Até às minhas olheiras ficarem ainda mais profundas do que já são. Estou cansada. Cansada de amar demais. Amei-te demais e a ti também. A ti, condeno-te por não teres esquecido e a ti por não teres tentado mais uma vez, ou quantas tivessem sido necessárias para que desse certo. E condeno-me por ter amado tanto e feito sofrer tanto. E alegro-me com tudo o que a vida me deu. Porque este ano foi poesia, foi vinho e cigarros à mistura. Noites sem dormir, gargalhadas, lágrimas no quarto enquanto a malta se embebedava na sala. E uma dor. Que nunca ninguém viu. Foi um ano em que cresci mais do que queria. Vi mais do que pensava. Conheci o mundo. O teu corpo e o meu. Sim, mais uma vez ficou tanto por dizer. Não te disse que voltei a ter insónias, nem que tive pesadelos contigo todas as noites. Nem que sonhei que dava à luz um filho teu. Talvez não te tenha dito vezes suficientes que te amava, mas senti que isso não ia fazer diferença. Eu já não fazia parte de nada teu. Dei-te o coração. Quente e dobrado de estar contra o meu peito. Passei-te o meu cheiro. Fiquei contigo na memória. Cheguei a casa, pus a água quente a correr. Deixei que me queimasse a pele. Quis que ela estalasse e se desprendesse do meu corpo. Queria uma nova. E toda a gente me ouviu chorar pela casa enquanto arrumava fotografias e cartas, enquanto mexia nas coisas que eram tuas. E doeu-me particularmente aquela frase feita de que vou arranjar alguém. Não. Isso não. E apesar de termos sido tudo nunca fomos nada. Não era nossa a cama, nem os cobertores que nos tapavam, nem o sol que com dificuldade entrava pela frincha da janela. Nada era nosso. Mas eu era tua. Tão tua e achava que isso bastava. Quando adormeceste nos meus braços tudo era perfeito. Mas quando acordaste já não eras mais meu. E nunca mais o foste. E voltou a doer quando espetei os ferros em brasa no coração para te arrancar de lá. Ficou o sabor amargo de nunca te ter verdadeiramente amado. De não me teres deixado amar-te. Ficaram as cicatrizes daquela única noite na mão. Às vezes pergunto-me se serei assim tão difícil de amar e por que é que nunca ninguém espera por mim. Por que é que nunca há tempo para mim.
Adeus. Vou mudar de vida. Talvez desta vez rape o cabelo. Estou farta de o cortar pela metade. E se o Saramago morrer, não é uma parte de nós que se perde. Vai-me custar, confesso, mas ele fez o tinha a fazer: uniu-nos, nem que seja pela literatura, e partiu em paz. Talvez tenha sido essa a sua grande missão.
Um beijo.
Amo-te e adeus.
Adeus. Vou mudar de vida. Talvez desta vez rape o cabelo. Estou farta de o cortar pela metade. E se o Saramago morrer, não é uma parte de nós que se perde. Vai-me custar, confesso, mas ele fez o tinha a fazer: uniu-nos, nem que seja pela literatura, e partiu em paz. Talvez tenha sido essa a sua grande missão.
Um beijo.
Amo-te e adeus.
Sábado, Dezembro 22, 2007
para onde vamos?
"Não quero que acabe e esforço-me por te merecer cada momento. Não quero que acabe. Envolvo-te com mais força: o corpo a dizer-te que não vás. Sorris, afirmativamente. E enroscaste-te de novo de encontro ao meu peito. E agora onde vamos?"
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
a culpa é da vontade
"a culpa não é do sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar
a culpa não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que eu tenho de te sentir
a culpa é da vontade que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade
a culpa não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver
a culpa não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que suporta o meu cantar
a culpa é da vontade que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade"
António Variações
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar
a culpa não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que eu tenho de te sentir
a culpa é da vontade que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade
a culpa não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver
a culpa não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que suporta o meu cantar
a culpa é da vontade que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade"
António Variações
Sexta-feira, Dezembro 14, 2007
é Natal
"Gostava de sentir o frio na cara, de gorro enfiado na cabeça e de mãos enluvadas nas tuas mãos quentinhas, enquanto passeávamos pela cidade enfeitada a cantar baixinho um para o outro canções de Natal. Queria sentir os teus lábios a aquecerem os meus frios, sempre ansiosos pelo teu calor. Queria provar contigo as iguarias natalícias, rir-me contigo à socapa enquanto fazemos bolachas, pintar-te o nariz com açúcar em pó. Beijar-te debaixo do azevinho" e voltar a beijar-te para que nunca mais me esquecesses.
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
só tu sabes
"fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e
vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas
dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas:
fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua
onde os nossos olhares se encontram é noite: as
pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas,
tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam:
nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a
ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades
de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?,
pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga"
José Luís Peixoto
vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas
dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas:
fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua
onde os nossos olhares se encontram é noite: as
pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas,
tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam:
nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a
ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades
de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?,
pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga"
José Luís Peixoto
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
beijo de boa noite
Há dias que são especiais apesar de não serem providos de grandes acontecimentos. Mas o de hoje amanheceu lindo. O sol a entrar pela janela e os lençóis quentes do meu corpo entorpecido. E espreguiço-me como um gato. Saio para a rua de gorro colorido na cabeça e deixo que música que levo no mp3 tome conta dos meus pés que caminham em sintonia com o ritmo. Chego à estação de metro e sou apanhada na multidão que caminha no sentido contrário ao meu. Estou no centro do caos da estação da Alameda e não resisto. Silent Void no volume máximo, porque esta música tem a capacidade de me rasgar um sorriso de orelha a orelha e, completamente divertida, apercebo-me que a capacidade de amar transcende muitas coisas. O físico, a gravidade, a distância e perdura em todos os poros da pele e recantos da alma. Independentemente da forma que tem. O que a música faz. Sorrio. Só houve uma outra altura em que fiz algo parecido. Estação de comboios de Milão. Starlight dos Muse a passar nos altifalantes. Estação invariavelmente cheia e eu a cantar a pelos pulmões a música que tantas manhãs na Montalegrense ouvi. Fi-lo numa tentativa de me libertar dos amores que sempre irei amar. Fazem-se coisas doidas em Erasmus e esta foi uma delas.
O dia da minha morte ainda não foi hoje. Dito assim parece estranho. Fui ao supermercado comprar um garrafão de cinco litros de vinho tinto (a mulher da caixa perguntou-me se eu queria um saco para tapar o garrafão…a mim, logo a mim ela pergunta isto. Ficou com o saco para ela). Quando voltava para casa com o dito garrafão debaixo do braço e um saco de maçãs na outra mão (para fazer sangria), trava um carro para me deixar passar na passadeira. Mas o de trás não. Bate no carro da frente e o da frente toca-me nas pernas. Tremi. O sangue parou. Apercebi-me de como a mente é prodigiosa e desconcertante a fornecer informação. Imaginei o meu sangue no chão misturado com o vinho. Na altura achei que seria uma boa maneira de morrer.
Tocava Dreams in Colour.
Beijo de boa noite
“I say love…”
O dia da minha morte ainda não foi hoje. Dito assim parece estranho. Fui ao supermercado comprar um garrafão de cinco litros de vinho tinto (a mulher da caixa perguntou-me se eu queria um saco para tapar o garrafão…a mim, logo a mim ela pergunta isto. Ficou com o saco para ela). Quando voltava para casa com o dito garrafão debaixo do braço e um saco de maçãs na outra mão (para fazer sangria), trava um carro para me deixar passar na passadeira. Mas o de trás não. Bate no carro da frente e o da frente toca-me nas pernas. Tremi. O sangue parou. Apercebi-me de como a mente é prodigiosa e desconcertante a fornecer informação. Imaginei o meu sangue no chão misturado com o vinho. Na altura achei que seria uma boa maneira de morrer.
Tocava Dreams in Colour.
Beijo de boa noite
“I say love…”
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