(fotografia de Jovelino Matos Almeida)Era uma vez um deserto, grande como o mar que outrora lá existiu. E era uma vez também um homem tão negro como um mouro das arábias, que tinha uns olhos grandes como duas opalas que reflectem incessantemente o calor da terra.
Um dia, esses mesmos olhos pousaram sobre uma enigmática princesa de olhos oblíquos, cuja pele tinha o tom do areal que o mouro tão bem conhecia, pois vezes sem conta o calcorreara na esperança de encontrar um caminho havia muitos anos. Tantos que já nem se lembrava. Recordava-se apenas que não tinha tantas rugas, nem tantos cabelos da cor da lua, nem a pele tão crestada do sol.
Andara em vão. Em círculos, traçando rectas, impregnando o vasto deserto com a sua presença. Contou inúmeras luas cheias até àquele dia, em que para o mouro tão negro como a noite profunda, tudo começou a fazer sentido.
Viu-a e amou-a.
- Sara é o meu nome – murmurou ela.
- Como o deserto! – exclamou o mouro da cor do carvão.
E para ele ela foi o deserto. Foi grande, extenso e dourado. Foi chama, foi paixão, foi amor. Perdidos um no outro, sentiram a areia a escorrer por debaixo dos pés, o vento a envolve-los num abraço forte. Sentiram todas as forças do mundo entre eles. E fizeram juras eternas e prometeram ficar juntos para sempre. Mas tal não aconteceu. Ela era uma princesa das Arábias e ele um pobre mouro que errou pelo deserto infinito durante toda a vida na esperança de a encontrar.
- O teu amor basta para morrer feliz – disse-lhe ele.
E ali, choraram abraçados, no meio do deserto. E choraram tanto que formaram um rio que passou a mar e hoje é impossível saber de quem são as lágrimas. Se do mouro tão negro como a outra face da lua, se da linda princesa de olhos oblíquos que por ele morreu.